79 - Água
Pequenas Tragédias
Então, estou de volta! Muita coisa aconteceu entre essa carta e a anterior. Basicamente, muito trabalho, um pouco de lazer e uma pequena tragédia.
Assisti Deadpool e Wolverine no cinema, achei divertidísimo mas queria muito ter tido a experiência sem ter tomado todos os spoilers antes. Paciência, essa é a internet, né? Participei novamente da Tropic Con nesse último fim de semana. Foi legal, boas vendas e conversas. Fiz uma palestrinha sobre recursos e narrativa de Quadrinhos que quero muito transformar num vídeo. A produção daquele projeto que estava parado há um ano voltou com tudo. E tivemos uma enchente em casa.
Te conto logo abaixo. No meio-tempo, correndo pra compensar o tempo perdido.
PEQUENAS TRAGÉDIAS
Na madrugada de domingo pra segunda, tivemos uma tempestade forte aqui na ilha. Choveu muito, mas muito MESMO. Vários lugares aqui em torno, uma das regiões mais afetadas, sofreram com alagamentos, estradas bloqueadas ou até com trechos destruídos. O parque da cidade não existe mais, o lago virou um lamaçal com a quebra de uma represa (não sei se era muito grande, mas o suficiente pra estragar o lugar). E aqui em casa, água, muita água.
Fomos dormir umas 23h30, mais ou menos, com aquela chuvona, raios e trovões. Até lembramos do Dr. Victor do Castelo Rá-Tim-Bum e seu “Raios e Trovões!” Lá por 1h30 da manhã eu acordei ouvindo uma barulho de água que não era chuva. Parecia água saindo de uma calha. Coloquei os pés no chão e estava tudo molhado.
Em poucos minutos, nós desligamos todas as coisas das tomadas, erguemos coisas e avisamos o pessoal da casa. Nós moramos no porão, que foi remodelado pra ser um apartamento. Ainda temos acesso à casa de cima, onde moram a dona da casa e alguns inquilinos. Pegamos nossos documentos, computadores e coisas essenciais e fomos pra casa de cima.
O nível da água não subiu tanto, ainda bem. Coisa de 5cm, talvez. Mas isso foi suficiente pra molhar (e, depois, estufar) tudo de madeira que tem na casa. Cadeiras, estantes, portas e rodapés. Uma coisa impressionante foi ver de onde a água veio. Da porta da entrada, esguichando pelas laterais inferiores, como era de se esperar. Maas olhando pela janelinha da porta, oque tinha lá fora era um tanque cheio com mais de 1 metro de água. Essa porta fica na base de uma escadinha de cimento e na frente dela tem uma boca-de-lobo (um bueiro, mas não pra esgoto, pra escoamento de água de chuva mesmo). Esse treco já tinha muita terra dentro e eu já tinha a suspeita de que, se rolasse uma chuvona poderosa, ele não ia dar conta de escoar e a água ia entrar em casa. E foi isso que aconteceu naquela noite.
Uma sorte é que as portas que dão pra fora da casa, assim como algumas janelas, têm uma vedação muito boa, pensada, acredito, mais pra segurar temperatura (aqui faz um frio do cão). Essa vedação, se estivesse perfeitamente em ordem, teria segurado a água. Mas como aqui nessa casa tudo é meio velho e falta manutenção há tempos, vazou. Vazou pouco, comparando com a piscina lá fora, mas um pouco foi o suficiente pra alagar não só nossa casa, mas o porão ao lado (que é porão de fato, cheio de coisas da casa).
Tentamos tirar aquele piscinão com baldes, eu e a Arleen, a dona da casa. Debaixo de uma bruta chuva. Não adiantou. Decidimos deixar quieto porque tava ficando perigoso e o estrago já tinha sido feito.
Os dias seguintes, segunda a quarta, foram praticamente inteiros de limpeza e organização. O cano de escoamento já vou cavado e tiraram mais de um metro de lama. Ainda tem muita terra lá dentro, mas menos que antes. Só acho que se eles não contratarem um serviço profissional pra desentupir aquilo, não demora muito pra encher de terra de novo.
Grazadeus não perdemos nada nosso, todas as coisas importantes e de valor estavam seguras. A água não estragou nada além das madeiras estufadas e um ou dois tapetinhos. Ontem mesmo já estávamos de volta ao trabalho pra compensar o tempo perdido.
Sei que comparando com a tragédia recente do Rio Grande do Sul, nosso caso foi até bem tranquilo. Eu sinto muito, muito mesmo por todo mundo no RS. O que a gente viveu aqui já foi estressante, só posso imaginar o tamanho do sofrimento no Brasil. Quer dizer, não preciso imaginar. Eu vi fotos, vídeos, relatos e até HQs sobre o assunto e meu coração partia toda vez que eu via o tamanho da tragédia. Amigos meus perderam tanto, tanta gente sofreu… Não é justo.
Eu sei que a natureza não é algo que se controla ou que funciona na base do que é justo ou não. Mas o componente humano em tudo tem que ser responsabilizado, sim. Não foi por falta de aviso, de indícios, de lógica. Tanto aqui quanto aí, com suas proporções obviamente guardadas.
Bom, bola pra frente. Estamos há um tempinho procurando um lugar pra mudar e esse caso do alagamento foi, com o perdão do trocadilho, a gota d’água.
Agora, vamos falar de coisas mais alegres!
PRÊMIOS!
Recentemente, um dos projetos do qual participei ano passado foi anunciado como finalista em dois prêmios muito importantes! “Atirei o Pau no Gato” é finalista do Prêmio ABERST de Literatura, e sua versão em inglês, “The Wheels on the Bus” concorre na categoria “Melhor Antologia” no Ignatz Awards, prêmio super importante de quadrinhos independentes nos EUA!
Em nome da equipe do livro, composta de uma monte de gente querida e talentosa, e da editora Jupati Books, digo que estamos muito felizes com essa conquista e torcemos muito para que possamos levar os troféus!
Você pode votar em nós no Ignatz e aproveitar e dar seu voto para o Hugo Canuto e seu quadrinhos Contos dos Orixás na categoria “Novo Talento”! Para isso, você precisa entrar NESSE SITE e se cadastrar pra receber a cédula por email. A minha demorou uns dias pra chegar, mas chegou.
Esse livro é bem divertido: são histórias de terror inspiradas por canções infantis! A minha foi “Se você está feliz, bata palmas”, com roteiro do Lucio Luiz (que, além de ser o editor, escreveu todos os roteiros). Abaixo uma das minhas páginas:
PROJETOS!
Como já disse antes, meus últimos anos foram permeados de pequenos projetos aqui e ali, freelas e mentorias, mas tem dois projetões de quadrinhos se alternando na prancheta. Sou o arte-finalista de ambos. Tinha te contado que um deles estava estacionado há meses, enquanto o outro começou com tudo. No momento em que escrevo, o que estava parado já voltou com tudo e o que estava rolando parou um pouco. Meio doido, mas continuamos em frente.
Algumas mudanças rolaram no planejamento de ambos. O primeiro, que será publicado primeiro aqui fora, que retomei agora, tem um prazo curto pra entrega de uma centena e meia de páginas, mas o anúncio e lançamento será só ano que vem. O outro, que sai no Brasil, está em fase de ajustes e já não é certo o lançamento na CCXP, como planejado. Estamos vendo com a Iron Studios como as coisas vão rolar. Tem possibilidades muito legais pra esse projeto, por isso esse redirecionamento.
Uma amostrinha? Lá vai:
(Não conta pra ninguém!)
PENSAMENTOS!
Tinha reservado vários trechos de newsletters que acompanho pra mostrar pra você, mas como você viu, faz tempo e no caminho teve muita coisa, acabou que eu vou citar só uma. Depois, talvez, eu releia as outras e se rolar, compartilho nas próximas.
Esse trecho, com tradução minha, sai da newsletter do Kyle T Webster, que trabalhava na Adobe criando os brushes mais incríveis e que recentemente saiu pra trabalhar na Procreate, criando brushes incríveis. Ele fala sobre como fez uma reflexão acerca de sua aparente não evolução na arte nos últimos tempos.
“O fato é que você não pode dar conta de tudo o tempo todo na sua vida; se você notar uma pausa prolongada no progresso em uma área, isso quase sempre significa que você experimentou um crescimento significativo em outra área.
Ao perceber o quanto cresci como pai, um novo residente de um país estrangeiro e um criador de brushes, posso entender facilmente por que o crescimento em outras áreas, como habilidade de desenho, simplesmente não era possível. Na verdade, isso realmente me dá uma nova apreciação por completar alguns bons desenhos, em meio às outras coisas que tive que descobrir nos últimos doze meses.
Eu encorajo todos vocês a fazerem o mesmo exercício. Se você vê as coisas desacelerarem em sua vida criativa de alguma forma, há uma boa chance de que você esteja crescendo e melhorando em outro lugar. Com um pouco de autorreflexão, você pode identificar essas áreas; notá-las, celebrá-las e dar a si os parabéns por isso.”
Leia o texto completo AQUI e considere se inscrever na carta do tio Kyle!
Sei lá, eu me sinto mais ou menos assim, em uma certa estagnação artística, criativa. Claro, as coisas acontecem, o trabalho é feito. Todas as técnicas, experiências e criatividade ainda estão aqui e são muito bem empregadas, mas parece que falta algo, parece que eu estou no mesmo lugar há muito tempo. Pra quem é artista, acredito, isso incomoda.
Eu não sou contra confiar na Zona de Conforto, aliás tenho até um vídeo onde explico porque ela pode ser é muito boa. Veja AQUI pra entender.
A questão é que sim, enquanto talvez sua arte não tenha evoluído, você definitivamente evoluiu em outras áreas da sua vida. E isso é bastante.
E DESENHO, NÉ?
Depois de tudo isso, uns desenhos recentes do Sketchbook:











Oi, Mário. Sinto muito em saber o percalço que você é a Mônica viveram com a enchente. Mas ainda bem que foi mais um susto e que vocês estão bem e não perderam nada. Abraços!